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Aurélio Quintanilha


Aurélio Pereira da Silva Quintanilha foi um professor universitário e investigador português de renome internacional nas área da genética e da botânica. Perseguido pelo Estado Novo que o expulsou da Universidade e da função pública, desenvolveu parte da sua actividade no estrangeiro, sempre com excelentes resultados. Posteriormente, apesar de continuar banido da função pública, trabalhou para o Estado em Moçambique onde desenvolveu trabalho de topo internacional na melhoria das culturas de algodão.
Aurélio Quintanilha nasceu em 24 de Abril de 1892 em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, nos Açores. Faleceu em Lisboa em 27 de Junho de 1987.

Foi um excelente aluno no ensino básico e secundário, tendo frequentado o ensino secundário em três liceus dos Açores, Angra do Heroísmo, Horta e Ponta Delgada, e concluído o curso com distinção. Aos 16 anos parte para o Continente para ingressar na Escola do Exército, o que não chega a acontecer. Após frequentar cadeiras do curso de Medicina na Universidade de Coimbra, muda-se para Lisboa em 1912. Aí matricula-se no curso de Medicina da recém criada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa onde frequenta as aulas de nomes grandes da Geração Médica de 1911, como Augusto Celestino da Costa, Mark Athias, Aníbal de Bettencourt e Pedro Roberto Chaves. Embora não tenha concluído o curso de Medicina, o contacto com estes professores foi precioso para os seus conhecimentos de citologia e histologia que seriam determinantes na sua carreira científica.

Após uma grave doença que, em 1915, o obriga a internamento hospitalar, segue o conselho do Professor Rui Teles Palhinha de quem é amigo e conterrâneo e matricula-se na também recentemente criada Faculdade de Ciências de Lisboa, no curso de Ciências Histórico-Naturais. Interessando-se muito pela Botânica, acaba por ser contratado como segundo assistente em 1917, ainda antes de ter acabado o curso, o que aconteceu em 1919, tendo obtido a classificação de 20 valores. Nesse período aprofundou o seu interesse pela citologia.

Após o final do curso é convidado para primeiro assistente na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, convite que aceita, indo leccionar Botânica Médica e Morfologia e Fisiologia dos Vegetais. Continuou os seus trabalhos de citologia num centro de investigação que desenvolveu. Simultaneamente inicia a sua colaboração com a Sociedade Broteriana, uma sociedade científica, ligada à Universidade de Coimbra, muito voltada para os estudos de Botânica e mais concretamente com a tarefa de dar suporte à publicação do Boletim da Sociedade, tendo-se iniciado assim, a publicação da segunda série desta revista. Aurélio Quintanilha publicou um elevado número de trabalhos seus nesta revista, mesmo depois de ter sido expulso da Universidade pelo Estado Novo.

Quando entrou na Universidade de Coimbra como docente, preocupado com o domínio dos aspectos pedagógicos, matriculou-se como aluno da Escola Normal Superior de Coimbra. Dois anos depois, em 1921 fez o Exame de Estado com uma dissertação sobre com o título Educação de hoje — Educação de amanhã, defendendo a importância do trabalho prático e a conveniência de partir do concreto para o abstracto. Na dissertação assume uma visão libertária da educação, sugerindo inclusivamente a inclusão da educação sexual no ensino, o que lhe valeu alguma resistência, embora tenha sido aprovado com 18 valores.

Em 1925 Aurélio Quintanilha e um punhado de colegas e amigos, instituem a Universidade Livre de Coimbra que terá uma relativamente curta vida, terminando o projecto em 1933.

Em 1926 apresenta a sua tese de doutoramento sobre o ciclo de vida do fungo Synchytrium papillatum. É aprovado por unanimidade e concorre de imediato para um lugar de Professor Catedrático. Toma posse ainda no ano de 1926.

Politicamente Aurélio Quintanilha foi influenciado pelas ideias anarco-sindicalistas ainda nos Açores, tendo desenvolvido alguma actividade política com amigos, já no continente. Colaborou na revista Homens Livres, revista de corpo editorial muito heterogéneo, que apenas publicou dois números acessíveis na Hemeroteca Municipal de Lisboa. A actividade política de Aurélio Quintanilha, porém, reduziu-se a quase zero a seguir a 1919. Isso não impediu o Estado Novo de o expulsar da Universidade e da Função Pública em 1935.

Sobre a ligação de Aurélio Quintanilha ao anarco-sindicalismo, há alguns dados interessantes aqui.

Aurélio Quintanilha, para continuar a sua actividade científica teve de se exilar, trabalhando sobretudo em França e reforçando o prestígio internacional que já tinha. Após o início da segunda guerra mundial e a ocupação da França, retorna a Portugal onde, apesar do interesse de António Câmara em que fosse trabalhar para a Estação Agronómica Nacional, não conseguiu ser contratado, trabalhando dois anos sem qualquer remuneração. Em 1943 é sujeito a um exílio interno, sendo colocado em Moçambique no Centro da Investigação Científica Algodoeira, que passou a dirigir (!).

Ainda em 1943 é-lhe atribuído o Prémio Arthur Malheiros pela Academia das Ciências de Lisboa pela sua publicação Doze anos de citologia e genética dos fungos adiante referido.

Em Moçambique viveu 32 anos e desenvolveu um trabalho notável sobre a planta do algodão, tendo aprofundado o conhecimento sobre a planta e o seu ciclo de vida, dando origem ao desenvolvimento de híbridos muito mais rentáveis que as plantas previamente existentes, tendo sido reconhecido internacionalmente por todo este trabalho. Foi agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Witwatersrand na África do Sul, o que o colocou de novo num ambiente universitário tendo colaborado em vários júris de doutoramento e de concurso nessa universidade. Em 1958 é eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

Apesar de tudo isto, quando em 1962 foi extinta a Junta do Algodão, e Aurélio Quintanilha perfez 70 anos de idade e, portanto, tendo de se aposentar, permanecendo marginalizado pelo regime, voltou a receber apenas uma pequena compensação financeira que lhe tinha sido concedida aquando da sua expulsão da Universidade. A situação era de tal forma bizarra que o Prof. Veiga Simão, reitor da recém-criada Universidade de Lourenço Marques, consegue um lugar para ele na Universidade em que, não podendo ser remunerado pelo estado, recebia uma Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Continuou a sua actividade científica e dava aulas a título gracioso.

Com a morte de Salazar e a subida ao poder de Marcelo Caetano, o seu trabalho é reconhecido e é agraciado com o grau de Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico em 1972.

Após os 25 de Abril, a seu pedido, foi reintegrado na Universidade de Coimbra como Professor Catedrático e, tendo já ultrapassado a idade de jubilação, pronunciou a sua última lição, numa sessão solene muito concorrida. O tema da sua última lição foi Quatro gerações de cientistas na história do Instituto Botânico de Coimbra. Já com Moçambique independente, foi, em 1975, integrado na Universidade de Maputo, onde ainda realizou trabalho científico e foi responsável por uma cadeira de Métodos de Investigação Científica. O Presidente Samora Machel concedeu-lhe ainda a nacionalidade Moçambicana. Em 1981 é-lhe concedido o grau de Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa e em 1983 é-lhe também concedido o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Em 1987 recebe a condecoração da Ordem da Liberdade.

Das Sociedades Científicas a que pertenceu, salientam-se: a Sociedade Broteriana, a Societé Botanique de France, a Société Mycologique de France, a Deutsche Botanische Gesellschaft, a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, a Sociedade Portuguesa de Biologia, a Sociedade Portuguesa de Genética de que foi o primeiro sócio honorário, admitido em 1974 e a extinta, Sociedade de Estudos de Moçambique. Como trás referido, em 1958, foi também eleito sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa.

Na Biblioteca Cosmos publica em 1942, Os Fundamentos Científicos da Sexualidade, número 25 da colecção.

Ao longo da sua extensa carreira, Aurélio Quintanilha publicou um grande número de artigos, relatórios e outros documentos. Referem-se aqui apenas alguns:

Há um conjunto de artigos, teses e outros documentos sobre Aurélio Quintanilha, o seu pensamento e o seu trabalho científico. Referem-se alguns seguidamente:

No Arquivo da RTP pode ser vista uma intervenção de Vitorino Nemésio sobre Aurélio Quintanilha, e mais concretamente sobre a homenagem que lhe seria prestada na universidade de Coimbra por ocasião da sua última aula.

Em 1992, nos meses de Abril e Maio, ocorreram em Lisboa, as celebrações do centenário do nascimento de Aurélio Quintanilha, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa e da Sociedade Portuguesa de Genética.

Uma nota biográfica mais detalhada pode ser consultada na página da Wikipedia que lhe é dedicada.



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